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27/02/2025

"Não abandonemos a arqueologia, como os nossos antecessores a abandonaram ao fascismo e ao nazismo", nem a Gaza Trump

Em Portugal, a Arqueologia já algum tempo que sucumbiu a "uma lógica de mercado a que se deve submeter em nome dos imperativos da “gestão do património arqueológico”.

O mundo, tal como o conhecemos actualmente, exige redobrada atenção às questões do Património. Olhando o vídeo “Trump Gaza” que o senhor Trump nos enviou para casa, faz sentido ler e trazer de novo para os materiais de debate obrigatório e reflexão nas Universidades, entre outros, os textos de Laurent Olivier, Notre passé n’est pas à vendre Nuestro pasado no está en venta, Complutum, 2013, Vol. 24 (1): 29-39 e How I learned the Low of the Marketin Aparício P. (ed.) (2016): Archaeology and Neoliberalism. JAS Arqueología Editorial, Madrid:223-238.

No resumo do texto de 2013, Laurente Olivier escreve:

"A própria razão de ser da arqueologia está agora a ser brutalmente atacada, sob a pressão de uma lógica de mercado a que se deve submeter em nome dos imperativos da “gestão do património arqueológico”. Esta submissão tem a sua forma mais visível na ascensão da chamada arqueologia “preventiva”, mas afecta também, de forma não menos violenta, o funcionamento dos museus e a investigação institucional. No interior da própria disciplina, esta subjugação da arqueologia reflecte-se no desenvolvimento de um verdadeiro processo de proletarização da investigação. No plano externo, a “mercantilização” da arqueologia está a desfazer o elo político que une o estudo e a preservação dos vestígios do passado à comunidade de cidadãos que os herdaram. Desta forma, a submissão à norma económica produz uma dupla exclusão: exclui os arqueólogos da sua própria disciplina, tal como exclui os cidadãos dos seus próprios assuntos - a coisa pública, a res publica. Por toda a Europa, faz-se a mesma constatação: uma nova classe de tecnocratas está a tomar o poder sobre os investigadores e os criadores. Está a desmantelar os domínios de que se apoderou, transformando-os em meras actividades de produção económica, agora desprovidas de qualquer significado. Não podemos, em boa consciência, abandonar a gestão da nossa disciplina. Não abandonemos a arqueologia, como os nossos antecessores a abandonaram ao fascismo e ao nazismo."

Três anos passados, no texto 2016, Laurent Olivier anota o percurso que se fez:

"A concorrência fez explodir o trabalho de elaboração de dados arqueológicos. Escavávamos um fragmento de sítio aqui, mas o outro fragmento está a ser escavado ali pela concorrência. Não saberemos, portanto, nada, ou saberemos muito pouco. No entanto, o conhecimento arqueológico é construído através da paciente acumulação de observações, operação após operação, ano após ano. De que serve agora o trabalho de campo, se já não é isso? Não é surpreendente notar, nestas condições, que a arqueologia preventiva se tornou um dos sectores de actividade onde as perturbações psico-ocupacionais - como se costuma dizer - assumiram uma importância preocupante. E depois há a questão dos arquivos da escavação, que já não estão centralizados em lado nenhum e que correm o risco de acabar no caixote do lixo quando um operador privado vai à falência ou abandona a sua actividade.

(...) A arqueologia tornou-se não só o auxiliar dos empreendedores (entidade contratante), a sua vanguarda de certa forma, mas também e, sobretudo, instrumento da Lei do mercado. O seu capital de simpatia, que era imenso na opinião pública, foi grandemente desvalorizado: a arqueologia inspira agora desconfiança, ou mesmo desinteresse. Isto não é surpreendente; nas suas actuais condições de funcionamento, a arqueologia foi despojada do seu papel social. Já não liga às pessoas restaurando-lhes um património comum, uma riqueza frágil pertencente a todos; ela contribui, ao contrário, para espoliámos dessa memória dos lugares onde vivem e trabalham.

Isto não é o que queríamos Não era isto que queríamos; não é isto que queremos.

A arqueologia não está à venda, porque não pode ser de qualquer forma um produto. É um património comum, disponível para a comunidade. E é em benefício de todos que devemos cuidar dele, precisamente porque este património arqueológico é um bem comum inalienável. A arqueologia não presta serviço e os arqueólogos não são agentes que trabalham para clientes. A arqueologia transmite o património arqueológico do passado às gerações futuras e os arqueólogos trabalham para a comunidade. Não faz sentido de outra forma."

Palestinos retornam a cenário devastado por Irael na faixa de Gaza, no domingo (19), após acordo de cessar-fogo - Omar Al-Qattaa/AFP






                    






Na Gaza do senhor Trump não há Arqueologia, mas há notas que caiem do céu. Mas, face ao que fazemos atualmente,"Escavávamos um fragmento de sítio aqui, mas o outro fragmento está a ser escavado ali pela concorrência. Não saberemos, portanto, nada, ou saberemos muito pouco”, pouco importa se há ou não há Arqueologia. E, todavia, deveria importar.

Para que se não eliminem os traços das Gaza deste mundo, ou que se não memorizem apenas por fragmentos sem nexo nem sentido, que se guardam em reservas que a todo o momento podem ser deitadas ao lixo, quando não são essas reservas já o próprio lixo, é urgente pensar se é isto que queremos da Arqueologia.

Porque é fácil deslumbrarmo-nos e, mais fácil ainda, AGILIZAR, como nos é proposto a partir das instituições que gerem o Património em Portugal.

13/08/2024

O original prevalecerá sempre sobre a cópia (plágio) I

Pouco frequente será, nos tempos próximos mais frequente.

Iniciamos aqui, independentemente dos canais legais (particularmente da IGAC), a denúncia, com exemplos, da apropriação abusiva e ilegal do nosso trabalho.
Traremos aqui exemplo práticos do crime de plágio e usurpação: O plágio é um crime, entendido como o acto de alguém apresentar como seu o trabalho de outra pessoa; é autor do crime de usurpação quem compilar obras sem autorização do autor.
 A publicação ou divulgação de uma obra ainda não divulgada, não publicada ou não destinada a publicação também é tratada como crime de usurpação. 
Também por questões de cidadania, não podemos deixar de divulgar o uso abusivo do nosso trabalho inédito, protegido por direitos de autor. Esse trabalho, constante nos relatórios que obrigatoriamente têm que ser enviados à tutela está protegido por lei e não pode ser usada
.sem autorização expressa dos autores.  

Um exemplo:
A planta aqui apresentada corresponde a uma fase de trabalho arqueológico, no ano de 2015.
Esta Planta, reproduz, à escala1:20, as realidades de terreno observadas no sítio arqueológico Beja - Templo Romano - Conservatório Regional de Música do Baixo Alentejo - Praça da República e Rua da Moeda, CNS 12172, nesse tempo.
Ela é totalmente realizada pelo Dr. José Luís Madeira para o projecto Arqueologia das Cidades de Beja.



























Como se verifica na imagem seguinte, a planta foi recortada, e assim 
abastardada passou a ser utilizada como se fosse propriedade da empresa NovaArqueologia.  Omitiram os créditos, e até a legenda de apagou! E, depois , em fragmentos, foi usada, também: Sempre no quadro de benefícios comerciais.



















20/03/2024

01/10/2023

“Uso a palavra para compor meus silêncios.”

 En una época de engaño universal decir la verdad es un acto revolucionario” Ian Angus 


uma vez que à data não nos encontrávamos em trabalho de gabinete como não se perspectivava o início e/ou reinício de qualquer intervenção arqueológica de que somos responsáveis, resolvemos anuir ao desafio que nos foi colocado" Filipe J. Santos, in 
Plano de Trabalhos Arqueológicos Acompanhamento Arqueológico Projecto de Valorização do Espaço do Fórum (o acento é do autor) Romano de Beja [Beja], Abril de 2023, p.7

Para refletir sobre a frase supra inscrita roubei o verso “Uso a palavra para compor meus silêncios.” ao poeta Manuel de Barros, do poema O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS, porque o jeito que tenho para as palavra é redondo e faria com que elas, rebolando, se atrapalhassem a se esquecessem do senso de responsabilidade cívica e da militância que lhes dá forma e vida.

Turvam-se os olhos a enxergar os campos da Novarqueologia; porque queria ler neste programa de trabalhos oferta de ampliação de conhecimento e empenho, mas apenas alcanço banquete de miséria humana.
Enquanto não abro os livros das coisas firmadas, continuo a recorrer a Manuel de Barros:                                                                                                                 
                                                                                                                            Importâncias: 


"Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building."

 

E lendo o parecer que laudatoriamente a tutela redige, particularmente o ponto 21, toda a poesia se esmorece, porque nem dá espaço para apanhar desperdícios: O acompanhamento  a realizar pelo arqueólogo que subscreve O PATA Permitirá sim agilizar o processo de concretização de um projecto de valorização de um importante sítio arqueológico da cidade de Beja,(...) e vem criar uma infraestrutura museográfica-museológica importantíssima para a cidade e que, na nossa opinião, pode permitir a maximização do projecto arqueológico e a sua valorização.”  

 

Ficaríamos descansados se esta biscate fosse trazer mais valias de conhecimento técnico e científico; mas como é no intervalo de seus afazeres e para agilizar as dúvidas são legítimas.

 

A felicidade dos sábios surge de seus próprios atos livres.” Pensamentos de Marco Aurélio.

31/05/2023

O Cansaço e o reforço das convicções

 Em artigo publicado no jornal o  In Público, na Quinta feira, 25 de Maio de 2023, pag.9 , Eduardo Marçal Grilo, entre outros exemplos de cansaço, referia:

(...) "Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal".

(...) "Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo. Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções. E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema. Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir. Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja".

O Professor Marçal Grilo termina o seu texto com uma convicção determinada " Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.
Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos."

        Nunca me senti tão convocada para a subscrição de um texto e para a partilha de uma convicção.


o texto Completo do Professor Marçal Grilo

"Estou farto e cansado
Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.
Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.
Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos. Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media. Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas. Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.
Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos. Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.
"Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.
Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.
Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.
Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias. Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.
Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis. Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.
Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.
Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer quali􀃆cação.
Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo. Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções. E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema. Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir. Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.
Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.
Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais. Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar. Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.
Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias. Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.
Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.
Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos."
(Eduardo Marçal Grilo. Ex-ministro da Educação. In Público, Quinta feira, 25 de Maio de 2023, pag. 9)

27/05/2023

Pax Iulia e o seu Forum Esclarecimento e Parecer (Por Jorge Alarcão)



 

A Câmara Municipal de Beja e o Senhor Arquitecto Vítor Mestre têm publicamente (e talvez em documentos oficiais que desconhecemos) apresentado como tendo a nossa aprovação o projecto de edifício a construir na rua da Moeda como equipamento para acolher os visitantes das ruínas do fórum romano de Beja escavadas, com inexcedível competência, pela Doutora Maria da Conceição Lopes. Isso é apenas meia-verdade. Cumpre revelar a outra meia-verdade que tem sido intencionalmente ocultada pela Câmara Municipal e pelo Senhor Arquitecto Vítor Mestre. 

Na primeira apresentação pública do projecto, realizada em Fevereiro de 2020, manifestámos inequivocamente a nossa posição. A solução que considerámos ideal (e mantemos ainda hoje a mesma opinião) devia ser outra: o aproveitamento do edifício camarário que tem frente para a Praça da República (com os números 41 e 43) e traseiras para as ruínas do fórum. Nesse edifício devia ser instalado um Museu Arqueológico para recolher e apresentar os materiais (abundantes e importantes) recolhidos nas escavações, assim como os que se encontram actualmente no Museu Regional de Beja (designadamente os extraordinários capiteis do fórum). Do rés-do-chão desse edifício ter-se-ia acesso fácil às ruínas. Dos andares superiores ter-se-ia excelente vista aérea das mesmas ruínas, eventualmente tornando até desnecessário, para muitos visitantes, o calcorreamento ou pisoteamento das mesmas ruínas (com vantagem para a sua conservação). Além disso, no equipamento projectado pelo Senhor Arquitecto Vítor Mestre não haveria (e não há) espaço suficiente para uns sanitários que pudessem (ou possam) responder convenientemente a um grupo de 25 ou 30 visitantes que em simultâneo cheguem depois de um percurso de duas horas de autocarro. O problema não existiria no edifício da Praça da República.

Dado que, naquela sessão de apresentação do projecto, se tornou manifesto que a Câmara Municipal não aceitaria a nossa proposta e que estava firmemente decidida a executar o projecto que havia encomendado, manifestámos a nossa disposição de ajudar a revê-lo tendo como objectivo diminuir os aspectos negativos. 

Tivemos então algumas reuniões de trabalho com o Senhor Arquitecto Vítor Mestre, que, receptivo às nossas sugestões, procedeu a algumas alterações, das quais a mais importante foi a de elevar o piso do edifício a uma cota que permitisse a visita das ruínas que ficarão sob o mesmo edifício. 

Esta é a meia-verdade que tem sido escamoteada. Para nós, a solução ideal teria sido outra.

Devemos, todavia, honestamente, confirmar que colaborámos na revisão do projecto, embora desconheçamos a sua versão final e definitiva. Desconhecemos também o projecto que terá sido elaborado de rede de escoamento de águas pluviais e de instalação eléctrica.

Tendo sido de boa-vontade e informal a nossa colaboração, sem qualquer indigitação ou confirmação pela Direcção Geral do Património Cultural, recusamos qualquer alegação de que fomos o arqueólogo responsável pelo acompanhamento do projecto. Nunca, aliás, nos teríamos prestado a desempenhar esse papel, por entendermos que ele caberia, de pleno direito, à Doutora Maria da Conceição Lopes.   

 

Também não temos conhecimento de qualquer proposta, se é que existe, relativa aos trabalhos de conservação e apresentação das ruínas. Pela Drª Adília Alarcão foram apresentadas ao Senhor Presidente da Câmara Municipal as bases e princípios para um programa e respectivo caderno de encargos. Se tal programa e caderno chegaram a ser elaborados (e, neste caso, por quem) não é do nosso conhecimento.

 

Temos informação de que o arqueólogo Filipe João Carvalho dos Santos apresentou um PATA para a realização dos trabalhos de acompanhamento requeridos no âmbito do Projecto de Valorização do Edifício do Forum de Beja. Entendemos que tal acompanhamento deve, por razões científicas e éticas, ser assegurado pela Doutora Maria da Conceição Lopes. Quem competentemente realizou as escavações e, como é óbvio, conhece a complexidade das ruínas e as sabe interpfetar é a pessoa indicada para assegurar esse acompanhamento. Outra escolha é eticamente condenável (se é que não é também juridicamente reprovável).

 

 

Coimbra, 10 de Maio de 2023

 

  

Jorge de Alarcão

                                     (Professor Catedrático Aposentado

         da Faculdade de letras de Coimbra)


O documento é publicado por expressa vontade do autor, Jorge de Alarcão, depois de dado prévio conhecimento  a todos os que nele são  referidos, direta ou indiretamente.

19/05/2023

A ARTE DA TERRA


Em Assembleia Geral Extraordinária do ICOM, em Praga, no dia 24 de agosto 2022, foi aprovada uma nova definição de Museu:

"Museu é uma instituição  permanente, sem fins lucrativos  e ao serviço da sociedade, que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe o património material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus fomentam a diversidade e a sustentabilidade. Com a participação das comunidades, os museus funcionam e comunicam de forma ética e profissional, proporcionando experiências diversas para educação, fruição, reflexão e partilha de conhecimento".

A terra guarda em seus perfis peças de desenho excepcional e excelência para a pesquisa.
Este corte estratigráfico, observado na escavação no Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo/ Rua da Moeda, em Beja, é uma dessas peças.
A cobiça pelo acervo dos museus às vezes dá belas comédias: como Um Crime Nada Perfeito, The Maiden Heist (Original), filme dirigido por Peter Hewitt com Wynn Everett, Bates Wilder. Todavia, às vezes, as as obras perdem-se para sempre. E nem mesmo é o mundo dos NFT que as pode salvar. 

Perfil sul Sc3
@arqueologia das cidades de Beja

15/05/2023

Escavadora. Claro que sou!

 Hoje acedi a uma texto onde um rapaz, Filipe J. C. Santos, se me referia como a escavadora.

Ao longo de vários anos trabalhei num projecto que ele, que nunca visitou, critica com voz, certamente sábia, e desdenhadora das escavadoras. 

Como adjectivo, o dicionário indica que sábio é o que sabe fazer habilidades. 

Eu, como escavadora, que no dicionário diz significar ser uma máquina de escavar, ofereço-me o qualificativo com orgulho.  Como arqueóloga, que no dicionário diz ser a pessoa que se dedica à Arqueologia, não tenho dúvidas que foi  o trabalho em torno dessa magnífica ciência que me fez "escavadora".  Foi apenas essa habilidades, a de querer saber de cor o que diz a terra.

Nunca me furtei ao trabalho para saber mais. Porque o saber dá trabalho. De viva Voz, é preciso escavar!

Contra a Misogenia, nada como uma escavadora!




15/04/2023

Cidades Romanas do conventus pacensis em diálogo no sudoeste peninsular.

No corrente ano de 2023 cumprem-se 50 anos desde a primeira edição de Portugal Romano, de Jorge de Alarcão, obra mater da Arqueologia Romana em Portugal. 
Para comemorar esse marco determinante para a arqueologia portuguesa e para o Instituto de Arqueologia da UC, o Centro de Estudos em Artes, Arqueologia e Ciências do Património (CEAACP), de que fazem parte as Universidades de Coimbra, do Algarve e o Campo Arqueológico de Mértola, vai realizar um evento sobre as cidades romanas do Sul de Portugal, que serão discutidas em confronto com as cidades romanas vizinhas do lado espanhol. Um Encontro Internacional, com  o título 
Cidades Romanas do conventus pacensis em diálogo no sudoeste peninsular, irá realizar-se no próximo dia 11 de maio em Faro, antiga cidade de Ossonoba, com visita no dia seguinte a Myrtilis, nome da antiga cidade romana de Mértola. 



Pax Iulia a actual cidade de Beja era a capital do conventus pacensis
É em tempos de César, em meados do séc. I a. C,  que  o antigo e grande aglomerado urbano recebe os primeiros equipamentos urbanos instalados pelos romanos. Desde então, tomando a zona monumental do forum e as inscrições como parâmetro, o antigo aglomerado vai implementando os processos e os equipamentos que lhe permitirão assumir a capitalidade de uma circunscrição jurídica - conventus - e evoluir com importância destacada na província da Lusitânia.

Muito do que foi a velha Pax Iulia está  sob a actual cidade. Pretendem alguns saber tudo dela eu, que alguma coisa sei, sou levada às cidades invisíveis de Italo Calvino: Zaíra e  Zora 
Zaíra: A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.   
(...)

Zora, cidade que quem viu uma vez nunca mais consegue esquecer (...) Zora tem a propriedade de permanecer na memória ponto por ponto, na sucessão das ruas e das casas ao longo das ruas e das portas e janelas das casas, apesar de não demonstrar particular beleza ou raridade. O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota. 


13/02/2022

Pax Iulia capítulo de Ciudades Romanas de Hispania Cities of Roman Hispania



A Colónia Romana de Pax Iulia apresenta os novos achados e o conhecimento possível que deles resulta em excelente volume coordenado por Trinidad Nogales Basarrate ,a. diretora do Museu Nacional de arte Romano de Mérida

(...)Sobre Pax Iulia, a importante cidade romana da Lusitânia Meridional, não faltam na cidade testemunhos que atestam o seu processo de construção e a sua importância. O complexo de termas que está agora a ser encontrado na área do jardim do tribunal revela, uma vez mais, como é possível encontrar testemunhos dos tempos antigos da cidade em excelente estado de conservação. No mesmo sentido, o baptistério escavado (Fig-2-E) em frente ao templo do complexo tiberiano, abre novas linhas de estudo e convoca o célebre bispo Apringio de Beja em 531. Os trabalhos em curso atestam o decisivo papel deste bispo na continuação da cidade de Beja, durante a Tardo Antiguidade como principal espaço político e de representação regional, certamente requalificada e readaptada (Lopes, 2020).

Se os paradigmas da arqueologia urbana em Portugal se alterarem juntando vontades, zelo político e envolvimento da comunidade, os próximos anos serão determinantes para encontrar a nova imagem da cidade romana que aqui brevemente expusemos.

Poder-se-ia dizer que o mesmo se passa no que respeita ao espaço extra muros da cidade. O conhecimento do quadro de exploração agro-pecuária, que vimos defendendo se torna necessário para alimentar as estruturas ligadas á indústria de salga e conserva de peixe e à produção de ânforas no vale do Sado e na costa litoral na área de Sines, sairia reforçado se se fossem acautelando os dados sobre os quais muito frequentemente surgem notícias de destruição em razão da agricultura intensiva, motivadas por destruições não controladas e às vezes criminosas de villae.

Neste tema se enquadra a problemática da rede cadastral, o instrumento de estruturação e gestão do espaço agrário que terá servido de suporte à exploração desse território, o qual tem estimulado grandes debates. Se em nossa opinião o trabalho de Cedric Lavigne que “ouvre sur des realité planimetriques extrêmement variées, potenciellement riches de sense quant a la comprehension du rapport des societés anciennes à l’écoumène» (Lavigne, 2006: 44) nos estimula metodologicamente e abre novas perspectivas, outras publicações mostram o mesmo interesse mas outras metodologias de abordagem.

J. Gerard Gorges, em publicação datada de 2010, faz uso de metodologia muito ancorada em estudos morfo-históricos e afirma perentóriamente a confirmação da existência de dois grandes cadastros romanos, tal como V. Mantas o havia proposto (Mantas, 1996) Apesar de se apresentarem muito degradados na zona envolvente de Beja a “trame est suffisamment conservée dans deux secteurs ou certains vestíges sont encore repérables” (Gorges, 2010: 160). Ora, até ao presente, e apesar de vastissimos trabalho de arqueologia preventiva, nenhum traço dessa eventual centuriação foi registado.

Na breve síntese que serve de apresentação dos novos dados arqueológicos da cidade de Pax Iulia, a cidade que Estrabão designou de Pax Augusta, quando a referiu em conjunto com as colónias de Augusta Emerita, e Caesaraugusta, se deixou aberto o interesse e a importância que os novos dados arqueológicos trazem para o conhecimento da cidade capital do conventus pacensis.



Ciudades Romanas de Hispania

Cities of Roman Hispania

Trinidad Nogales Basarrate

Editora


Edición del volumen:

Trinidad Nogales Basarrate


Coordinación editorial:

María José Pérez del Castillo


Diseño y maquetación:

Artes Gráficas Rejas, S. L. Mérida (Spain)

Ilustración de la cubierta: Recreación ideal de Augusta Emerita, J.R. Casals.

Ciudades Romanas de Hispania

Cities of Roman Hispania

(Hispania Antigua, Serie Arqueológica, 13)


Copyright 2021- L'ERMA di BRETSCHNEIDER

Via Marianna Dionigi, 57

00193 Roma - Italia


www.lerma.it

70 Enterprise Drive, Suite 2

Bristol, 06010 - USA

 

25/12/2021

Narbonne à reconquista da sua romanidade ou como há políticos que fazem a diferença na cultura

 No dia 20 de Dezembro de 2021 uma reportagem em France Culture, dedicada à importância do património na fábrica da cidade contemporânea, destacava a História de uma reconstituição cultural da 1.º colónia romana criada na Gália, no séc. II a.C : Narbos Martius a imensa capital, a cidade antiga de Nrabonne.
Contrariamente a Arles ou Nimes, que guardam alguns dos monumentos antigos ainda visíveis, Narbonne, cidade bem mais importante e maior, viu os seus edifícios romanos desmantelados para dar origem a outros , como ocorreu em muitas cidades antigas.
 Em 2010, a região de Languedoc-Roussillon, liderada por Georges Frêche, em razão de que " Para além do povo de Narbonne e investigadores ou estudiosos, poucas pessoas conhecem o glorioso passado antigo desta cidade, conhecida sobretudo pelos seus grandes edifícios medievais" decidiu  mostrar esse passado num museu.
Financiado a 90% pela região, o museu que custou 57 milhões de euros destina-se a ser um museu em movimento, ou seja, evolutivo e moderno.
 Concebido pela equipa de arquitectura britânica de Fosters, a sua peça central é uma enorme parede de 760 blocos de pedra apresentados num gliptoteque de 90 metros quadrados (museu de pedras gravadas) com um sistema robótico que permite que cada pedra, cada fragmento, seja colocado no seu contexto histórico através de uma série de ecrãs gigantes.

19/07/2020

Estátua do culto imperial em Pax Iulia (Beja), Portugal

Parte superior de uma estátua (de tamanho maior que o natural), que deve corresponder a uma das peças do grupo escultórico do culto imperial organizado no forum da cidade de Pax Iulia, Beja.
A cavidade aberta na zona do pescoço servia para colocar a cabeça da personagem da casa imperial que se apresentaria sentada.
Esta foto data de 2013, pouco depois de ter sido recolhida algures na cidade. Dada a "grande qualidade artística", reconhecida, entre outros, pela especialista Trinidad Nogales Basarate (durante muitos anos diretora do Museu Nacional Romano de Mérida), previa-se que em 2020 tão importante peça estivesse em local publico onde fosse identificada e a sua importância realçada. Está, desde há uns anos, no Museu da Rua do Sembrano, ao fundo da salaencaixada no espaço de uma porta rotativa de vidro (suja e enferrujada), onde serve para disfarçar e impedir o acesso a tão desastrada abertura no tão infeliz projecto de arquitetura. Para ali atirada (confinada), poucos dão importância a esta magnífica peça, mesmo amputada; e menos ainda saberão que tipologicamente é muito próxima de duas estátuas do conjunto do possível Santuário del Cerro de Minguillar, em Baena (Cordova, Espanha), a antiga cidade de Iponuba, as quais se exibem no Museu Nacional Arqueológico, em Madrid, com o destaque que lhes é devido.

Com tipo igual a esta, achada numa das grandes villae da periferia de Beja, expõe-se num dos corredores do Museu de Évora a parte inferior de uma estátua sedente feminina, talvez uma imperatriz, de qualidade artística notável, datada do início do império.
 Uma pequena inscrição em grego, num dos lados, levanta a possibilidade de ter sido uma peça importada, para servir de modelo a outras ou, não sendo para modelo ser o resultado do trabalho de um escultor de origem grega, de grande mestria que, entretanto, tinha chegado à Lusitânia.
 Achada na villa romana
 de  Vale de Aguieiro, foi levada para Évora, conjuntamente com outras peças, por Frei Manuel do Cenáculo no final dom século XVIII.
 


Desta e doutras notáveis peças da escultura de Pax Iulia  muito brevemente daremos notícia aprofundada
Até lá, fica-lhes aqui a porta aberta.


30/03/2020

Ménade. Fragmento de Baixo Relevo de Pax Iulia, Beja, Portugal.

Este pequeno fragmento, 21, 5 cm, de um relevo, em mármore,  representa a parte inferior do torso e os membros inferiores, de uma Ménade ( termo que deriva do radical do verbo grego    maínomai, que significa mulheres "furiosas", frenéticas, mulheres loucas), trajada com uma veste transparente.  
A posição e abertura dos membros inferiores, com os pés em pontas, refletem um movimento delicado e firme de uma figura feminina dançando, acentuado pelo voluteio das pregas  a que o efeito molhado confere transparência.
Encontrada, no século XVIII, já fora do contexto original, junto aos alicerces da muralha romana de Beja, esta escultura pertenceu à colecção do Bispo Frei Manuel do Cenáculo, que a expôs no Museu Sesinando Cenáculo Pacence, situado junto ao largo do Salvador, em Beja, um museu nos primórdios da museologia em Portugal e, na época, uma referência nos circuitos internacionais  de viajantes eruditos.
Levado para Évora, em 1802, a peça encontra-se exposta no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora. Apoiada numa discreta base, criada pelo escultor eborense João Cutileiro, a qual lhe sublinha o ritmo e elegância da dança. Esta é, como diz Joaquim Caetano, uma das mais belas esculturas do Museu de Évora”.
Segundo a mitologia clássica, as primeiras Ménades foram as ninfas que alimentaram o deus Dionísio/Baco, e são conhecidas como as bacantes divinas. Inspiradas pela embriaguez, cantam e dançam freneticamente até serem possuídas por um êxtase místico. Representam-se nuas ou vestidas com véus ligeiros que mal lhes dissimulam a nudez. Em grupo de nove, dançam coroadas de hera, e trazem na mão um tirso, por vezes um cântaro, ou então tocam um instrumento, como uma flauta de dois tubos ou um tamborim.
Os seus rituais de danças frenéticas e gritos ruidosos, que incluíam a dilaceração e  refeição de animais selvagens, não ocorriam em nenhum templo, que dele não necessitavam. O culto era prestado em lugares montanhosos e  florestas densas, onde, afastadas dos homens e sem a presença de olhares de censura, realizavam o festim de excessos e lascívia, convivendo com seu deus, que as presenteava com leite de cabra e bagas, entre outras iguarias.
As bacantes, nome que as Ménades tomam em Roma, onde Dionísio se chama Baco, são   muito populares em tempos de Augusto, de tal modo que Virgílio, na Eneida, ao relatar a reação de Dido, a rainha de Cartago, quando descobre que os troianos se preparam para partir sem dizer nada, compara a sua reação de loucura e furor, inspirada simultaneamente por forças externas e internas, a uma ménade: “Privada de razão, encoleriza-se e vagueia como louca por toda a cidade, como uma Tíade (bacante) excitada pela preparação das cerimónias rituais, quando, ao ouvir o nome de Baco, a incitam as orgias trienais e, pela noite, o monte Citéron a chama aos brados.” (Vírgilio 4.300-3)

Neste delicado fragmento de relevo é sensível uma linguagem plástica do primeiro classicismo (século V a.C.) que apreendemos através da transparência sensual das vestes e da sensação de movimento, linguagem que seria recuperada na época do imperador Augusto (31 a.C. - 14 d.C.), período em que foi, certamente, executada essa peça. 
Muitas dúvidas permanecem sobre essa escultura. Que elemento decorativo seria? Estaria suspensa como parte de um oscillum? Em que espaço se aplicava? Um edifício público de Pax Iulia, num edifício privado? 
Helena Paula Carvalho diz que “a ménade talvez estivesse a decorar uma residência privada (um jardim por exemplo), mas é difícil não imaginar outras hipótess”. [p. 106]
Não vislumbro eu o ponto da cidade de onde veio esta magnífica peça que, na Idade Média, como outras, foi considerada desperdício civilizacional e em gesto (talvez impensado) foi objecto de damnacio memoriae e usada como pedra para construir a muralha.  Mas ficando nas hipóteses, estaria lá, em lugar onde as culturas se conjugavam, onde a narração de relatos dos cerimoniais frenéticos destas mulheres adoradoras do deus Bákkos, com seu adorado (o único que do panteão olímpico desce para se misturar com humanos) tivesse entendimento e fizesse sentido. 
Pouco importa, o local; é uma evidência mais do cosmopolitismo cultural de Pax Iulia, em tempos de Augusto.

Bibliografia

GONÇALVES, Luís Jorge Rodrigues, 2007 "Escultura romana em Portugal: uma arte do quotidiano", Studia Lusitana, IIVolume 1, n.º 115 pp 262.264- Vol. 2 p. 83, . Museo Nacional de Arte Romano; Mérida. (por toda bibliografia anterior)
CARVALHO, Helena Paula Abreu, 1992, " A Esculturas Romana em Portugal: um ensaio de Arqueologia Social, Universidade dos Açores, 1992 , pp 116.