De 11 de novembro de 2021 a 8 de março de 2022, o Musée de la Romanité, em Nîmes, acolheu uma exposição intitulada «Retratos e segredos das mulheres romanas. Imperatrizes, “matronas” e libertas» (Portraits et secrets de femmes romaines. Impératrices, ‘matrones’ et affranchies).
Para responder a questões como quem são essas mulheres, qual é o seu estatuto e como redefinem o seu papel no espaço público, a exposição mobilizou 35 peças provenientes de várias instituições. Através delas procurava-se apresentar mulheres romanas dos dois primeiros séculos do Império descritas como “poderosas, determinadas, controversas, independentes, rebeldes e muito mais”.
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| retrato de Sabina, 130 d.C @Museu do Prado |
Desde o início da República, no século V a.C., este modelo define a mulher ideal em Roma: esposa respeitável e mãe de família, responsável pela administração da casa e pela educação dos filhos, mas sem visibilidade política ou papel público. A mulher era vista acima de tudo como esposa e mãe, encarregada de dar à luz filhos legítimos e assegurar a continuidade da família e do corpo cívico.
Ao contrário dos rapazes, que recebiam uma educação mais avançada, as jovens eram formadas sobretudo para as tarefas domésticas e para a transmissão dos valores morais e familiares tradicionais. Tal como em muitas outras cidades do Império, também em Nîmes as mulheres se dedicavam principalmente à gestão do lar. Entre as elites, procurava-se corresponder ao ideal da matrona, símbolo de virtude e fidelidade. A estátua de Antónia Menor, princesa da dinastia júlio-claudiana, exposta no museu, ilustra bem esse arquétipo.
De acordo com o direito romano, as mulheres nasciam sob a tutela do pai. Uma vez casadas, o seu estatuto podia variar: podiam permanecer sob a tutela paterna ou passar para a do marido, dependendo do regime matrimonial escolhido. Em qualquer dos casos, não possuíam autonomia jurídica plena.
O casamento era também um elemento central na formação de alianças familiares, nas quais a futura esposa podia desempenhar um papel importante. Uma jovem proveniente de uma família influente podia contribuir para a carreira política ou social do marido.
Embora o estatuto jurídico das mulheres tenha evoluído pouco, no final da República, no século I a.C., algumas mulheres da elite beneficiavam de uma educação refinada e de património próprio, o que lhes podia dar alguma margem de ação, ainda que continuassem afastadas da vida política formal.
Durante o reinado do imperador Augusto (27 a.C.–14 d.C.), foram introduzidas algumas medidas com o objetivo de incentivar a natalidade. As mulheres da nobreza que tivessem três filhos podiam libertar-se da tutela legal; as libertas alcançavam esse estatuto após o quarto filho e as escravas após o quinto.
Ao mesmo tempo, Augusto utilizou as mulheres da sua própria família como parte da propaganda na legitimação simbólica do novo regime imperial. Pediu-lhes que encarnassem o modelo da matrona, mas concedeu-lhes também maior visibilidade pública. As mulheres da família imperial podiam receber o título de Augusta em vida e, após a morte, o de Diva. Esse modelo feminino era difundido através das representações oficiais da Domus Augusta, nomeadamente na estatuária, na epigrafia e nas moedas, tornando-se um referencial para mulheres de diferentes grupos sociais.
A exposição mostrava também que a realidade feminina romana era mais complexa do que este modelo idealizado.
Sabemos relativamente pouco sobre as atividades profissionais femininas, sobretudo entre as mulheres de condição mais modesta. No quotidiano, muitas estavam ligadas ao espaço doméstico, onde o trabalho da tecelagem ocupava um lugar central, como demonstram relevos e instrumentos têxteis encontrados em contextos arqueológicos.
Algumas mulheres eram parteiras; outras exerceram profissões médicas, como médicas, dentistas ou cirurgiãs. Existiam também amas e governantas, frequentemente libertas ou antigas escravas. As escravas trabalhavam como empregadas domésticas ou em atividades agrícolas. Outras mulheres participavam nas atividades artesanais ou comerciais da família, e algumas são mencionadas nas fontes pelo seu sentido de negócios. Por vezes, as mulheres surgem onde menos se esperaria encontrá-las: em profissões intelectuais, no artesanato e no comércio, na gestão de negócios ou mesmo como banqueiras. E mesmo quando aparecem nos papéis mais esperados — servas, amas ou ofícios ligados aos cuidados do corpo — continuam a surpreender. Entre as atividades femininas encontrava-se também a prostituição.
A exposição não pretendia abranger todas as experiências femininas conhecidas no mundo romano. Por exemplo, não aborda casos mais raros, como o das gladiadoras, cuja existência é hoje comprovada por algumas fontes arqueológicas e epigráficas.
No século II d.C., algumas evoluções jurídicas tornaram-se mais visíveis: as mulheres podiam redigir o seu próprio testamento, tornar-se herdeiras, divorciar-se e voltar a casar, embora o adultério implicasse sanções como a perda de parte da herança. É também importante lembrar que o estatuto das mulheres não era idêntico em todo o Império Romano, podendo variar entre a Itália e as diferentes províncias.
O estatuto das mulheres romanas revela-se, assim, complexo e variável. Embora durante muito tempo tenham vivido sob tutela masculina e dentro de um modelo social muito definido, os testemunhos arqueológicos e epigráficos mostram uma realidade mais diversa.
A tradição romana apresenta uma imagem feminina ideal que pouco muda ao longo do tempo, porém, a partir do final da República, a evolução dos costumes, o acesso à herança e a uma educação muitas vezes elevada modificam a posição social de algumas mulheres. .
A exposição, e as conferências que a acompanharam, mostraram claramente que a realidade das mulheres romanas foi, afinal, mais diversa do que o modelo ideal deixava supor.
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